fotoQuando: setembro/2009
Fotos e texto: Marcello Cavalcanti

"Montanha Velha" é a tradução literal do nome da Maravilha no 1 entre as 7 recém eleitas ao redor do mundo. Machu Picchu, a cidade perdida que os Incas abandonaram na chegada dos Espanhóis, e que só foi redescoberta no inicio do séc. XX pelo explorador americano Hiram Bigham, entrou finalmente na nossa lista de adventure trips.

O fascínio que esta cidadela de pedra - encravada a 2400 metros de altitude nas montanhas do Peru - exerce sobre a humanidade moderna desde sua descoberta em 1911 pode ser explicada com a tentativa de responder algumas perguntas que persistem até hoje no imaginário dos pesquisadores e turistas: Como ela foi construída? Porque tão isolada de tudo? Porque os espanhóis a deixaram intacta, enquanto colonizaram e catequizaram Cuzco, a capital do Império Inca? Será que eles realmente a encontraram? Quantas pessoas moravam ali? Porque ela ficou esquecida por 400 anos?

Roteiro
Antes de iniciarmos, uma informação importante: O Peru é um destino turístico bem econômico. Sua moeda é o Nuevo Sol, sendo R$1 = 1,40 Soles, e US$1 = 3 Soles (cotação para set/09). Quase tudo pode-se pagar em Soles ou Dólares.

Começamos nossa viagem desembarcando na capital do Peru, Lima. Chamada de Rimac antes da chegada dos espanhóis, Lima é uma cidade grande, com cerca de 8 milhões de habitantes, onde não chove. São menos de 8mm de chuva por ano - O Rio de Janeiro tem uma média anual de 2500mm. Por conta disso, as ruas e prédios são muito empoeirados. Contribuem para a poluição o transito caótico, comandado pela frota defasada de carros e ônibus. Os taxis não tem taxímetros, a corrida é negociada no ato. Algumas praias são excelentes para o surf, mas as melhores e mais famosas ondas peruanas estão no norte do país. Nos penhascos de Miraflores pode-se voar de parapente, com um visual incrível. Nas ruas, nota-se também uma grande desigualdade social, com a maior parte da população composta de descendentes de nativos peruanos (chamados de Cholos) e o restante entre brancos e descendentes de japoneses.

 

De Lima, pegamos o vôo da Taca para Cuzco, onde de fato inicia-se a aventura.
O vôo, de aprox. 1 hora de duração (US$170, aprox), sobrevoa montanhas nevadas, desertos áridos e florestas tropicais, numa variação de cenário incrível (recomendamos sentar na janela da esquerda! O visual é sensacional).
Cuzco foi a capital do império Inca. Localizada a 3400 m. de altitude, recomenda-se descansar no hotel/albergue por algumas horas assim que chegar, para uma aclimatação mais tranquila, pois o ar rarefeito faz diferença para quem mora ao nível do mar. Tonteira, nauseas e cansaço fora do normal são alguns dos sintomas do "soroche", a doença da altitude. Como remédio, mascar a folha de coca ou tomar o chá feito da mesma planta são algumas das receitas locais. A cidade, hoje com cerca de 400 mil hab., é a porta de entrada para Machu Picchu. Cuzco é um verdadeiro ponto de encontro de mochileiros e aventureiros. Albergues por toda parte, bares, restaurantes, agencias de turismo, centros de artesanato e algumas atrações históricas fazem a alegria de europeus, americanos, australianos e é claro brasileiros que passam por ali. Encontra-se hotéis de US$200 até albergues de US$10 / diária em Cuzco. Uma refeição local custa de 10 a 20 Soles, mas pode-se encontrar por mais barato afastando-se da Plaza de Armas, que é o centro turístico da cidade. Entre os pratos típicos, a carne de alpaca, muito saborosa (provamos) e o Cuy, que é um roedor (isso, um rato) que é servido na grelha ou com batatas (não provamos).

Atrações em Cuzco:
1) Plaza de Armas: O centro de Cuzco, com sua praça principal, onde localiza-se a catedral e o movimento da cidade (que hoje tem até McDonald's)
2) ruinas históricas: Sacsayhuaman, Korikancha, fortaleza Ollantaytambo e vale de Huatanay, todos próximos a Cuzco. Centenas de agencias de turismo locais fazem esses tours.
3) Pedra de 12 angulos: Uma enorme pedra esculpida pelos incas em 12 ângulos para o encaixe perfeito com as demais serve de base para uma construção espanhola. Recomendado pagar um guia local (ficam em frente a pedra e não cobram mais de 10 soles) para uma explicação sobre seu significado.

3 dias em Cuzco são suficientes para explorar toda a riqueza do local e ainda fazer amizade com outros mochileiros.

De Cuzco pode-se subir para a cidade perdida basicamente de 2 formas: trem ou trilha.
O Trem
O trem é a forma mais prática, em uma viagem que dura 3 horas montanha abaixo (Cuzco, a 3400 metros de altitude, está mais alta que o vale de Machu Picchu) e custa aprox. 100 dólares, na categoria backpacker. Compramos os tiquetes ainda em Lima, pois as vagas são muito limitadas, principalmente nos finais de semana. Pode-se comprar os bilhetes no shopping Larco Mar, em uma loja da Peru Rail, a operadora da linha férrea, ou online, ou ainda em Cuzco. mais info em www.perurail.com
Porém uma dica importante: O trem não sai de Cuzco, e sim de Poroy, uma vila a cerca de 15 min. de taxi de Cuzco.
A viagem é fantastica, passando por vales profundos, sempre acompanhando o Rio Urubamba. Pelo caminho, vilarejos, plantações, montanhas nevadas (Salkantay) e a ansiedade de chegar a Machu Picchu. A viagem é relativamente confortável inclusive com " serviço de bordo " vendendo snacks e bebidas.

A trilha
Optamos pelo trem, por ser mais rápido. Porém os mais aventureiros podem alcançar a cidade perdida pela famosa trilha inca. Trata-se de uma caminhada que pode durar até 4 dias, em sua versão mais longa, saindo de Cuzco. Alguns optam por versões menores da trilha, saindo de estações do Peru Rail, em caminhadas que duram 2 dias, 1 dia, ou até a mais enxuta, de apenas 6 horas.
Porém tudo deve ser agendado com antecendencia, se possível desde o Brasil: A trilha tem limite de pessoas por dia, e as vagas, mais uma vez, são limitadas. É claro que em Cuzco existem agencias que vendem "vagas" nas trilhas para o dia seguinte, porém você vai pagar um diferencial alto por resolver tudo em cima da hora.
A trilha é sempre feita na companhia de um guia local, e é aconselhada apenas a pessoas que estejam com um bom preparo físico. Além de carregar a sua mochila e dormir em barracas e alojamentos, os aventureiros encaram 8 horas diárias de caminhada, com muitas subidas, descidas e altitudes diversas que variam dos 3000 metros iniciais, de Cuzco, passando pelo ponto mais alto, a 4600mts de altitude e chegando a Machu Picchu 4 dias depois, a 2400mts. Porém a paisagem compensa todo o esforço. Planaltos, Montanhas escarpadas, lagos azuis cristalinos, cachoeiras, ruinas incas, animais típicos e povoados fazem parte do cenário que acompanha os trilheiros. E a chegada em Machu Picchu, ao nascer do Sol, pela Porta do Sol, é a recompensa final de uma aventura inesquecível.

Os trilheiros chegam a cidade perdida pela Porta do Sol. Já quem vai de trem chega antes a um vilarejo, Aguas Calientes. Esta simpática vila é o ponto final antes do ápice da viagem. Sem Machu Picchu, ela provavelmente não existiria. Aguas vive em função exclusivamente da cidade perdida. É lá em Aguas Calientes que estão os hotéis, albergues, restaurantes, lojas de souvenires etc, tudo relacionado a Machu Picchu. O nome da cidade remete as piscinas naturais de águas termais que existem por lá. É de Aguas também que saem os onibus, 1 a cada 10 minutos, para o parque de Machu Picchu. A viagem custa 14 dólares (ida e volta) e dura 30 min, por uma estradinha sinuosa e estreita, sempre subindo. Ficamos no hostel Pequeña Casita (US$50 o quarto duplo, US$ 60 o triplo), muito confortável e muito bem localizado, na principal rua de Aguas Calientes, praticamente em frente ao ponto do ônibus que vai para Machu Picchu e muito próximo à estação de trem.

Machu Picchu
O parque é controlado pela INC - Instituto Nacional de Cultura. São cerca de 2000 turistas por dia, pagando 40 dólares pela entrada na cidadela. O primeiro impacto é ao mesmo tempo assustador e fascinante. É dificil acreditar que se está realmente ali, ao vivo, em pessoa, naquela cidade de pedra construida no topo de uma montanha, cercada de montanhas ainda mais altas.
Dependendo do guia que você escolher, vai ouvir versões diferentes sobre a história de Machu Picchu. De senso comum, apenas que foi construida no séc XV, sob as ordens de Pachacuti, e que foi descoberta em 1911 por Hiram Bigham. Sabe-se também que grande parte foi reconstruída, o que pode ser visto claramente pela posição das pedras. Os incas tinham uma forma única de construir, encaixando as pedras gigantestas umas sobre as outras, como peças de Lego, sem usar qualquer tipo de argamassa ou cimento para segurá-las. Há diversas teorias sobre a função de Machu Picchu, e a mais aceita afirma que foi um assentamento construído com o objetivo de supervisionar a economia das regiões conquistadas e com o propósito secreto de refugiar o soberano Inca e seu séquito mais próximo, no caso de ataque.
Caminhando pela cidade (com o auxílio de um guia, senão não dá pra "entender" nada a não ser admirar a beleza do local - paga-se uma média de 140 Soles pelo serviço do guia) descobrimos templos, praças, postos de observação astronômica, áreas agrícolas, moradias, mausoléus, cemitérios e sentinelas. As lhamas e alpacas caminham livres pelo parque, e são relativamente mansas.
Machu Picchu foi elevado a categoria de Patrimônio Mundial da UNESCO, e por isso o turismo é rigorosamente controlado dentro do parque.

Huayna Picchu
O ponto alto da viagem (literalmente) foi subir ao topo de Huayna Picchu, a clássica montanha pontuda que aparece nas fotos tradicionais de Machu Picchu, atrás da cidade. Porém, mais uma vez o acesso é super restrito: são liberados apenas 400 acessos diários a esta trilha. Isso significa acordar as 4 da matina em Aguas Calientes e correr para a fila (quilométrica) de turistas esperando pelo início das operações dos ônibus, as 5 da manhã. Dessa forma conseguimos chegar a Machu Picchu as 6 da manhã aproximadamente, e conseguimos a senha 140 e 141 para subir. São 200 liberadas para subir as 7 da manhã, e mais 200 liberados para as 10 da manhã. Porém todas as senhas são distribuidas na primeira hora de operação do parque, portanto, não tem jeito, tem que ir cedo mesmo. (quando conseguimos as nossas senhas, as 200 das 10 da manhã já estavam esgotadas)
A subida é muito puxada, de cerca de 1 hora, porém bem ingrime. É praticamente uma escadaria construída pelos Incas, de degraus altos. Até por uma estreita caverna tivemos que passar para chegar. Mas o esforço compensa. Do alto, vimos a cidadela lá embaixo, bem pequena, e um entorno de altíssimas montanhas inacreditável, que não deixa dúvidas: Machu Picchu foi feita para não ser encontrada.

Mais informações:
INC: Instituto Nacional de Cultura do Peru - Responsável pela manutenção do parque de Machu Picchu

Peru Rail - Concessionária da linha férrea

Wikipedia - Machu Picchu