Moto XLongboard SkateSkateboardEscaladaTrekkingBMXMountain BikeOff RoadSurfWakeboardWindsurfKitesurfBodyboardMergulhoParaquedismoParapenteVôo LivreSnowboard

voltar à página principal



Bernardo Cavalcanti integrou uma expedição de 4 dias ao cume do Pico da Bandeira, com 2889 metros de altitude (3º mais alto do país) localizado no Parque Nacional do Caparaó, entre o Espírito Santo e Minas Gerais. Leia abaixo o incrível relato desta aventura e confira as fotos! * clique nas fotos para ampliá-las *

Por Bernardo Cavalcanti / Fotos: Bernardo Cavalcanti
Vou relatar a expedição Pico da Bandeira 2005 organizada pela Rio 4x4, realizada em novembro de 2005, durante um feriado de 4 dias, que se deu da seguinte forma: Seguimos de carro do Rio até a Serra do Caparaó; de lá, subimos a pé ao cume do Pico da Bandeira. Retornamos a pé para a Pousada, onde seguimos com os carros em estradas muito esburacadas e lameadas. No fim, um banho de cachoeira coroou a expedição.

Ao total eram 8 Land Rover's entre Defender 90 e 110, e mais uma Cherokee a se juntar no dia seguinte. A saída foi por volta das 14:00, na sexta feira, do Rio de Janeiro para uma cidadezinha chamada Alto Caparaó, em Minas Gerais. Pensávamos que seria uma viagem curta, mas as condições precárias da estrada nos fizeram chegar as 23h50, na Pousada do Rui, um lugar aconchegante e com pessoas bem dispostas a nos receber. Já estavam à nossa espera, com um banquete de comida mineira, com direito a torresmo, aipim e pé-de-moleque caseiro.

O comboio na estrada Eram 8 Land Rovers Jantando na Pousada do Rui
Preparados para a subida

No dia seguinte, sábado, acordo um pouco tarde e perco o café da manhã servido cedo. Levantei às 11 da manhã para preparar meu mochilão com o equipamento e roupas necessárias para 1 dia fora da pousada; embrulhar o pé com saco plástico, encher o camel back, trocar baterias da lanterna, deixar as barras de cereal nos bolsos externos, etc. As 13h30 é servido o almoço, novamente com pratos deliciosos, como polenta, taioba e bife ao alho e óleo. Às 14h30 finalmente o pessoal parte para o Parque do Caparaó, a uma altitude de aproximadamente 2.000m. A temperatura começa a esfriar, com uma constante chuva fina. Somente às 15h40 se dá inicio a caminhada. Iremos subir durante umas 2 horas até 2.500m de altitude, onde iremos acampar. O caminho tem dificuldade moderada, em mata meio fechada, com algumas cachoeiras no caminho. Algumas mulas sobem carregando materiais de acampamento e malas do grupo, mas eu e Alexandre decidimos subir com nosso mochilão nas costas, assim como o Fernando e o Barone. A chuva aumenta, e caminhamos sobre muitas pedras. Não consigo imaginar como as mulas conseguem subir aquele caminho, onde volta e meia precisa-se usar as mãos para subir "escadas" naturais esculpidas na pedra. O peso da mochila, que imagino estar nos 15-20kg, parece mais de 100kg, te segurando. O ombro não agüenta, e precisamos parar de vez em quando para beber água e distrair. Apesar do frio, chuva e muita neblina, estamos suando por baixo de tanta roupa. O único som audível é de um riacho que indica o caminho a seguir, e eventualmente alguém falando no rádio. Avistamos o "Terreirão", onde iríamos acampar, e imediatamente soltamos nossas mochilas para respirar aliviado. Me senti tão leve como se andasse na lua.

A subida puxada Vegetação local Subindo com as mulas de carga
O abrigo na montanha

A tarde caiu rapidamente, e só deu tempo de armar todas as barracas. O breu se torna absoluto, e agora só podemos andar com lanternas acesas. Apesar disso tudo, tínhamos uma pequena cabana que iluminamos com velas e lampião, para confraternizar e aproveitar o fantástico macarrão ao molho sugo do Augusto, acompanhados dos vinhos e Whiskys do Luciano. Por volta das 22h todos fomos dormir, para estar de pé as 3 da manhã e caminhar novamente até o pico, situado a quase 2.900m. Não consigo dormir durante a noite, e logo escuto uma voz de madrugada: é o Alexandre tentando me acordar, para recomeçar a caminhada. Depois de algumas tentativas, ele partiu sozinho. Então, ali no meu canto da barraca apertada, fazendo um frio de uns 5ºC, com muitas roupas incomodando, pé molhado, dor nas costas... ou seja, todos os "perrengues" de um típico acampamento no frio, resolvi alcançar o grupo. Rapidamente já estava de pé munido de todos os agasalhos que eu encontrei ali, saco plástico, casaco de chuva e desta vez, mochila de ataque, somente com água e alimentos. Saindo da barraca, já não tinha mais como enxergar onde estavam todos, nem com minha lanterna, pois o caminho já adentrava a mata, no escuro. Por sorte encontro a Julia com o André, que sabem para onde ir. Estavam todos nos esperando. Não chove mais, mas temos de encarar um solo desconhecido, iluminado pelos quase insignificantes feixes de lanternas, no meio de toda a umidade, pois estávamos atravessando as nuvens. A apreensão geral era saber se iríamos transpassá-las até o pico. Não dá para evitar de pisar dentro do riacho, que continua nos guiando, ou escorregar nas pedras íngremes. A visibilidade aumenta, e nos indica que as nuvens estão ficando para trás. Uma recompensa momentânea foi o espetáculo das estrelas e o "por-da-lua", com uma cor indescritível. Quem estava lá viu. Estamos atrasados, e um pequeno grupo se destaca na frente com ritmo acelerado para não perder o nascer do sol. Estou com eles. O céu começa a ficar levemente azulado, e alguns minutos depois eu não preciso mais da minha lanterna. Nada de sol. A ultima parte da subida, e mais difícil, é uma trilha no mato rasteiro, quase vertical. Em alguns momentos temos que nos agarrar as raízes. Pelo menos esse era o caminho mais rápido. Conseguimos! Como relatar a sensação de estar acima de todas as nuvens, que formam um tapete infinito cobrindo todo o céu, com exceção da pedra que você acabou de conquistar?

As barracas armadas para a pernoite Enquanto isso, o pessoal prepara um macarrão... ...dentro da cabana iluminada pelas lanternas
Depois de muita subida, a recompensa

O frio é tanto que não dá pra ficar com menos de duas luvas, nem tirar o gorro. Mais 10 minutos e o sol vai nascendo. A luz vermelha é tão forte que nenhuma câmera consegue registrar o momento com fidelidade. É mais sábio sentar-se para observar este acontecimento sem uma lente no meio do caminho. O grupo de trás não perdeu muita coisa. Aproveito para fazer um lanche com 'Toddynho' e 'Bolinho Ana Maria'. A temperatura subiu um pouco, para uns 10-15ºC, e já dava para ficar muitas das roupas.

A cruz indica o cume do pico da Bandeira Visual do topo Nascer do Sol - indescritível
O grupo, feliz por ter chegado ao topo

Nesse momento lembrei que para subir todo esse caminho, teria também de descer. Ah, esse é o pior momento! Então vamos lá, de volta as nuvens fechadas, pedras, riachos e plantas. A visibilidade é tão pequena que eu me perco de todos, e eventualmente vou encontrando outros perdidos. Desci a maioria do percurso sem sair de perto do Renato e Feliciano, para chegar ao Terreirão por volta de 8h30. O tempo é curto, precisamos arrumar tudo e descer. Dessa vez eu cedi e entreguei meu mochilão no lombo da mula . O Alexandre teve suas duas solas da bota descoladas, e teve de ir montado. O sol desaparece, e as nuvens tomam conta da descida final do Terreirão a entrada do parque. Acabei indo sozinho, e naturalmente me perdi na mata. A trilha pela qual eu seguia terminou subitamente, e não tinha mais pra onde ir. Aí era sentar e esperar. Não havia mais comunicação no radio pois algumas baterias já tinham se esgotado. Tento chamar em vão por alguns minutos, até conseguir a resposta do Bergier, que estava com o guia. Ah, finalmente. A descida se mostra muito pior que a subida, pois o impacto contínuo no joelho é tremendo. Não tem como "caminhar" somente, mas estar sempre saltando de pedra em pedra. Nem sinto mais meu pé. Que alívio, avistamos a chegada. Eram 11h da manhã. Para alguns o dia começava, mas para nós estava terminado. Às 12h30 é servido o almoço na pousada e pouco depois estamos todos dormindo. Depois do sono, acordo e tento lembrar de toda a aventura ininterrupta que havia se passado nas ultimas 24 horas. Ao tentar sair da cama percebo que meu joelho não agüenta mais sustentar o corpo. Não era só eu com esse problema. Depois de tomar uns remédios para a dor, fomos aproveitar o fim de domingo no único bar da pracinha local. Haviam várias igrejas, inclusive uma no meio dessa pracinha. O mais curioso é que os moradores locais ficavam dando voltas na praça. Contei alguns que chegaram a umas 10 voltas. Disseram que era pela falta do que fazer ali. Realmente, não pude discordar.

Patrícia no topo Visual do topo Alexandre e Bernardo descansando
A placa do local

Segunda feira, 8h da manhã, todos de pé, renovados, no café da manhã. Logo seguimos com os carros para a segunda etapa da viagem: OFF ROAD! Antes, uma paradinha no posto para abastecer e últimas checagens no óleo, pneus, etc. Começamos com a travessia de um rio, com uns 1,5m de profundidade. Sem problema para os nossos carros. Em seguida encaramos uma subida radical que nem todos conseguiram. Os Defender 110, por serem mais pesados, acabavam tendo mais trabalho. O 110 do Luciano e a Cherokee do Prado tiveram de ser guinchadas.

Atravessando o rio...   Visual de dentro do carro
"Olha a pedra!"
com água até o capô   Chegando em terra seca
o amontoado de Lands
O grupo da expedição
almoçando
subindo a ribanceira  
o trabalho para desatolar a 110 guinchada! A cherokee também ficou presa a camiseta da expedição

Para finalizar pudemos aproveitar uma cachoeirinha com piscina natural, água bem gelada, mas revitalizante. O sol resolveu aparecer exatamente neste momento. Parecia que os fenômenos meteorológicos estavam planejados. Era hora de voltar pra pousada e almoçar um ótimo feijão tropeiro com bolinho de taioba, e outros pratos. De volta para a lama! Encaramos atoleiros e estradas de terra no meio dos cafezais. Também não deixamos de fazer um pit stop no alambique local, para beber cachaça direto da fonte, e levar umas rapaduras para casa. Para minha surpresa, que até então estava ali como acompanhante no banco carona do 90 conversível do Alexandre, fui chamado pela Tereza para dirigir o 110 verde deles. A noite já tinha chegado, e eu peguei estradas de terra bem tranqüilas. Rapidamente me acostumei com a embreagem, e já estava confiante acelerando aquela máquina. Foi inesquecível, e como disse a Tereza: "Não pode ir a Roma sem conhecer o Papa". Ou algo semelhante.

O pessoal relaxando na cachoeira O pessoal relaxando na cachoeira Patricia na cachoeira
Toda a beleza do local
Mais um pouco de off road No alambique No alambique Uma expedição inesquecível

O dia estava no fim, todos cansados mas muito satisfeitos com o sucesso da expedição. Uma última visita a pracinha local para jantar uma pizza de noite, apreciar as estrelas, e depois arrumar as malas para terça feira partir de volta para casa bem cedinho. Gostaria de agradecer a todos aqueles que estiveram lá comigo e fizeram dessa expedição uma lembrança inesquecível. Até a próxima!


A Expedição Pico da Bandeira 2005 foi realizada pela Rio 4x4, com apoio da On The Rocks Aventuras. Bernardo Cavalcanti, colaborador do Triboaventura.com, viajou a convite da organização e documentou os 4 dias de Expedição.